domingo, 29 de setembro de 2013

Nekromantik (Alemanha, 1987)

Filme: Nekromantik
Diretor: Jörg Buttgereit
Ano: 1987
País: Alemanha
Duração: 75 minutos
Elenco:  Bernd Daktari Lorenz, Beatrice Manowski, Harald Lundt 

Rob tem um emprego não muito convencional. Ele faz parte de uma empresa que faz limpeza em acidentes, removendo o sangue e o que sobrou dos corpos. Logo no início, começando bem o filme, ele e sua equipe já mostram serviço, após nos ser apresentado um acidente de carro, em que um corpo é cortado ao meio, ficando com as tripas expostas.


Mas Rob realmente trabalha com o que gosta, e leva o próprio trabalho para casa. Ele coleciona os restos humanos em sua casa, e tem seu mórbido gosto compartilhado com sua namorada Betty, que tem o saudável hábito de tomar banhos com sangue na banheira.


Certo dia ele encontra um corpo em decomposição em um pântano e o leva para casa. Com o novo souvenir o casal pratica uma sessão de necrofilia, inclusive adaptando um pedaço de madeira como o membro do amigo decomposto, acompanhado de uma música e câmera lisérgica, certamente tornando esta uma das mais bizarras e surreais cenas de um ménage à trois já vistas no cinema.

Instalando o novo acessório

Beijoca
Detalhe pra foto ao fundo

Enquanto Rob está no trabalho, Betty fica em casa lendo e se divertindo com o que restou do novo amante. Rob acaba perdendo o emprego e consequentemente Betty o deixa, mostrando ser uma "Maria defunto" mais interessada nos brindes trazidos por Rob do que por ele mesmo. Ela o deixa e leva morto consigo.

Para todos os gostos

Tristonho

Naturalmente Rob passa por maus momentos. Realmente não deve fácil ser trocado por outra pessoa, quem dirá alguém morto. Ele tenta suprir a falta de ambos primeiramente com o sangue de um gato morto, usado como essência para o seu banho. Mas isto não o satisfaz, ele precisa da morte para se sentir vivo, como quando está com uma prostituta em um cemitério, só conseguindo excitar-se após matá-la. Detalhe para a cena seguinte em que é surpreendido pelo coveiro, que tem sua cabeça cortada horizontalmente ao meio com uma pá, lembrando muito o Bad Taste de Peter Jackson, também de 1987.



Durante o filme, são exibidas cenas de um coelho agonizando enquanto é morto e dilacerado. Imagino que estas cenas não foram inseridas à toa, apenas para chocar, mas podem fazer um paralelo com o fetiche dos protagonistas e remetem à frase de V.L. Compton que inicia o filme: "O quê vive que não vive da morte de outros?"

O final é memorável e bizarro, onde Rob leva seus desejos aos limites mais extremos, sacrificando-se, através de uma facada na barriga, e conseguindo assim uma sangrenta ereção de seu pênis mequetrefe de borracha/plástico, enquanto é retrocedida a morte do coelho até o momento que está vivo. Desta forma, ele volta a ser notado por Betty, pelo menos é a impressão que passa ao vermos a cena que encerra a exibição.


Nekromantik é um filme único, retratando o amor, a morte, relacionamentos baseados em interesses, de uma forma nunca antes vista. Certamente pode ser considerado repulsivo, perturbador, imoral e doentio por muitos, por isto, não é para qualquer público. Tanto que sofreu muito com a censura, sendo proibido em muitos países, inclusive até hoje, fato pelo qual, o rendeu o status de filme cult. Para os já iniciados na vertentes mais extremas do horror, talvez não tenha tanto impacto, mas algumas cenas certamente ficarão na memória.

Jörg Buttgereit, defunto e Bernd Daktari Lorenz
A música tema, feita por sintetizadores, é interessante e marcante, mas um pouco cansativa, já que é repetida várias vezes durante o filme. Em nível de referência musical, também vale citar que o filme é homenageado pela banda de gore/grind patológico Haemorrhage, da Espanha, que coloca o tema do filme na introdução do seu primeiro CD, Emetic Cult, de 1995. Banda que por sinal tem muito a ver com o tema abordado no filme.

Nekromantik tem apenas 75 minutos e foi o primeiro longa de Jörg Buttgereit, que continuou retratando a morte nos filmes seguintes. Ainda em 1987 fez Corpse Fucking Art, um documentário sobre Nekromantik, em 1990, Der Todesking, em 1991 viria a sequencia de seu primeiro filme em Nekromantik 2 e em 1994, Schramm. Todos eles escritos juntamente com Franz Rodenkirchen.

domingo, 22 de setembro de 2013

Alucarda, La hija de las tinieblas (México, 1977)

Filme: Alucarda, La hija de las tinieblas / Alucarda
Diretor: Juan López Moctezuma
Ano: 1977
País: México
Duração: 85 minutos
Elenco:  Claudio Brook, David Silva, Tina Romero
IMDb: 6,0

Alucarda (Tina Romero) é enviada para um convento logo após sua mãe lhe dar a luz e morrer por forças do mal em uma capela.

15 anos depois, no convento cuja aparência é de uma sinistra caverna, as freiras aparentam usar trapos brancos ensanguentados, como múmias de saia, que mais adiante entenderemos do que se trata. Diferente delas, Alucarda, como boa filha das trevas que é, traja suas descoladas roupas pretas. 

Justine (Susana Kamini), uma jovem inocente, chega ao convento e logo torna-se amiga de Alucarda, e rapidamente a relação vai além de uma simples amizade. Elas vão àquela capela abandonada onde Alucarda nascera e abrem um caixão. Depois disso Alucarda passa a ouvir vozes das trevas. Mal conhecendo Justine, Alucarda já declara seu amor à ela e, com seus corpos nus, fazem um pacto de sangue transmitindo seu espírito satânico à Justine em meio à curiosa figura de um cigano corcunda que surge do nada (diabo?), gerando uma bela chuva de sangue, décadas antes do remake de Evil Dead repetir o feito ou anos antes do Slayer e seu Raining Blood.





Vemos cenas que contrastam o sofrimento e auto-flagelação (o motivo das roupas ensanguentadas) das freiras com a liberdade sexual e prazer do ponto de vista contrário à religião, ambas retratadas de forma um pouco exagerada.


Em uma missa, as duas confrontam a madre superior, questionando deus e suas regras. A primeira ação das freiras é puni-las. Alucarda é obrigada a confessar-se ao padre e diz que ama e valoriza uma vida livre, sem se privar de prazeres, ao contrário dele, que vive baseando-se na morte, fundamentando sua vida no medo, privação e castigo.

Ambas são amarradas em cruzes e é realizado um ritual de exorcismo. Neste procedimento acabam matando Justine. O Dr. Oszek (Claudio Brook, que também interpreta o cigano) intervém, e como homem da ciência, reprova estes atos desumanos, afirmando ser uma demonstração de ignorância e abriga Alucarda em sua casa. 
Há o confronto entre ciência e religião e o médico busca através da razão explicar os fenômenos. Mas, como a ciência nem sempre explica tudo, o médico, infelizmente, ao ver a cabeça de uma freira morta continuar movendo-se, alia-se aos religiosos para impedir que Alucarda possua a sua filha.


Na capela encontram Justine nua e banhada em sangue dentro de um caixão. Ela ataca uma das freiras fazendo jorrar muito sangue de seu pescoço. Não encontrando Alucarda no local, voltam ao convento.



< Spoilers >

O final é marcado pelo convento em chamas vindo abaixo enquanto as freiras correm desesperadas de um lado pra outro, muita gritaria, crucifixos em chamas e Alucarda, assim como a imagem de cristo, desaparecendo. 


< Fim dos Spoilers >

O filme foi uma adaptação livre de Carmilla, um conto de ficção gótica escrito pelo irlandês Joseph Sheridan Le Fanu e publicado na revista Dark Blue entre 1871 e 1872. Tratava-se de um história de vampirismo e erotismo e foi muito influente, até mesmo para Bram Stoker ao escrever Drácula em 1897 e teve também várias adaptações cinematográficas. 

O diretor Juan Lopez Moctezuma chegou a ser colaborador de Alejandro Jodorovski nos filmes Fando e Lis e o clássico cult El Topo. Seu primeira produção como diretor foi The Mansion of Madness, baseado em Edgar Allan Poe.

Alucarda aborda temas controversos e polêmicos, como possessão demoníaca, críticas religiosas, lesbianismo, ainda mais considerando a época em que foi produzido. É um clássico do cinema de horror e exploitation, podendo ser considerado de certa forma como um nunsploitation, subgênero do exploitation que transgredia os valores e a repressão sexual da igreja católica, com histórias passadas em conventos, repletas de erotismo envolvendo as freiras.

No geral é um bom filme, com boa fotografia interessante. Foi rodado em 1975 no México e nos Estados Unidos e uma curiosidade é que o filme foi falado originalmente em inglês, e depois dublado em espanhol para o lançamento mexicano.

Em 2010 foi lançado o filme Alucardos - Retrato de um vampiro, um documentário sobre dois fãs de Alucarda que tiram Moctezuma do hospital psiquiátrico que estava internado por sofrer de esquizofrenia e mal de Alzheimer, e o ajudam a relembrar de suas obras.

domingo, 15 de setembro de 2013

Dark Star (EUA, 1974)

Filme: Dark Star
Diretor: John Carpenter
Ano: 1974
País: EUA
Duração: 83 minutos
Elenco:   Dan O'Bannon, Dre Pahich, Brian Narelle


Dark Star é uma nave tripulada por uma equipe de quatro astronautas que é responsável por destruir planetas instáveis mas por descaso das autoridades governamentais, não teve implantado um escudo antirradiação, como informa, no início, uma transmissão vinda da terra. 

A nave, que viaja a incríveis velocidades, tem a capacidade de frear quase que instantaneamente. Assim, eles podem ativar e largar as poderosas bombas capazes de destruir planetas inteiros. 

Na rota da Dark Star aparece um grupo de asteroides unidos por um campo de força eletromagnético (leia-se, luzes azuis), e é preciso ativar o escudo de proteção, que é uma luz laranja piscante ao redor da nave. Por não ter aquele maldito escudo antirradiação, pouco a pouco, a nave vi apresentando defeitos, como neste caso, quando um setor é atingido. Isto acaba ativando a bomba, que não é lançada após uma discussão entre o sistema inteligente da nave e o da bomba até entrarem em acordo. Em uma transmissão, os tripulantes informam que outro setor foi destruído, acabando com o estoque de um item imprescindível: papel higiênico!


Mas é dentro da nave que se passa boa parte do filme. Inclusive a inusitada caça ao mascote do grupo, uma espécie de bola de praia vermelha com bolinhas e patas. Esta bola é bastante sacana e causa várias confusões ao escapar pela nave. Atrás dela, Pinback fica preso no fosso do elevador, e passando maus momentos ao ficar pendurado embaixo do mesmo. Depois ele consegue entrar mas fica com meio corpo entalado. Esta longa sequencia é bastante divertida, sobretudo se comparado aos momentos entediantes que os tripulantes precisam passar por não terem o que fazer, já que estavam há anos abandonados no espaço. 


O redondo alienígena continua aprontando e até então é a maior ameaça. Ele acaba por ativar mais uma vez a bomba, que novamente é impedida pelo sistema de inteligência artificial da nave, com sua voz feminina. 


< Spoilers >

Quando um dos tripulantes está tentando consertar um dos setores defeituosos, acaba por ativar novamente a bomba, que desta vez está decidida a explodir, porém, fica presa à nave. Os poucos minutos que antecedem a explosão causam desespero em todos à bordo. 
Nesta situação o comandante Powell, que é mantido congelado há anos, é acionado para dar conselhos de como proceder, mas ele está mais interessado em saber como anda o time dos Dodgers!


Doolittle resolve sair e negociar com a bomba, tendo uma conversa existencial com ela, questionando as ordens que recebe e o sentido de sua existência fazendo-a desistir para refletir sobre o assunto. 

Quando acionada novamente, a bomba, já pensando por si própria, se nega a aceitar as ordens e, achando ser deus, decide finalmente "fazer a luz", explodindo a Dark Star.
Doolitle ainda do lado de fora consegue capturar um dos restos da nave e, como se fosse uma prancha, vai surfando pelo espaço rumo a sua destruição.


< Fim dos spoilers >

Dark Star trata-se de uma criativa comédia de ficção científica. O filme nasceu como um média metragem de 45 minutos escrito por John Carpenter e Dan O'Bannon, colegas da Universidade do Sul da Califórnia. Mais tarde, a pedido do produtor Jack H. Harris (que produziu A Bolha Assassina de 1958), foi ampliado e lançado em 1974, sendo o primeiro longa metragem de Carpenter. 

Foi feito de forma quase artesanal, com improviso, equipamentos emprestados e filmado durante os fins de semana, somando apenas 60 mil dólares no total. Devido a este fator, hoje os seus efeitos parecem toscos e até engraçados, também em razão da época em que foi realizado.

Mas este é apenas um detalhe superficial que não deve ser levado a sério e não compromete o filme. Aliás, nada no filme deve ser levado a sério. Existem situações hilárias e absurdas e a sequencia final é ótima e até filosófica.

O elenco é bastante reduzido, se baseando quase que totalmente nos quatro astronautas. Um deles, Pinback, é o próprio Dan O'Bannon. John Carpenter faz a voz de Talby e também é responsável pela trilha sonora, coisa que ele faria seguidamente em seus próximos filmes. A própria música country "Benson, Arizona", que toca durante o filme foi composta por Carpenter.

O  roteiro possivelmente foi aproveitado para O'Bannon escrever o clássico Alien, o Oitavo Passageiro, em 1979. Ele também foi o diretor do ótimo A Volta dos Mortos Vivos, de 1985.
Já Carpenter, como muitos já sabem, dirigiu clássicos como Assalto à 13ª DP, Halloween, Fuga de Nova York, Christine, Eles Vivem, Enigma do Outro Mundo, entre outros. Sendo que os dois últimos citados são sérios candidatos a aparecerem aqui no blog.


Dark Star é um bom filme, quase esquecido dentro da filmografia de Carpenter, mas é uma boa mostra do ele poderia fazer, mesmo com orçamento reduzido.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Acción Mutante (Espanha, 1992)

Filme: Acción Mutante / Ação Mutante
Diretor: Álex de la Iglesia
Ano: 1992
País: Espanha
Duração: 90 minutos
Elenco:  Antonio Resines, Álex Angulo, Frédérique Feder


O filme se passa no distópico futuro de 2012, onde a polícia é opressiva e violenta com a parte mais pobre e feia da sociedade. Até aí não temos tanta ficção. 

Ação Mutante é um grupo terrorista formado por pessoas deformadas, deficientes e mutantes. Eles são vistos como o lixo de uma sociedade que valoriza em demasia a beleza e o corpo. Eles não querem cheirar bem nem serem magros neste mundo dominado por filhinhos de papai bonitos, anúncios de água mineral, cosméticos, aeróbica e todas estas bobagens. Cansados de tudo isso, o grupo ataca personalidades conhecidas pela aparência. Atrapalhados e pouco espertos, geralmente suas investidas de sequestro são mal sucedidas e acabam matando acidentalmente estas pessoas.


No início, após um das tentativas frustradas de sequestro, um programa de TV apresenta os integrantes e os crimes cometidos pelo Ação Mutante. O grupo é composto por gêmeos siameses, um sujeito sem as pernas que fica flutuando, o idiota com força sobre-humana, e Ramon, o chefe que acabara de sair da prisão. O filme realmente tem início com a divertida música da banda Def Con Dos em forma de videoclipe, com imagens do grupo terrorista.

Durante o seu tempo na prisão, Ramon planeja entrar na festa de casamento de Patrícia,  filha de Orujo, um milionário da indústria alimentícia, e sequestrá-la para pedir seu resgate.


Eles entram com o bolo de casamento como um cavalo de Troia, com um dos seus dentro do bolo. Após algumas trapalhadas, ocorre um massacre, matando praticamente todos convidados e conseguindo com sucesso realizar o sequestro.


< Spoilers >

Porém, as coisas não correm como o planejado. O ganancioso Ramon engana os demais, dizendo que o valor do resgate é 10 milhões, mas eles vêem na TV que o valor seria 100 milhões. Além disto, após a conclusão do sequestro, Ramon, assim como a sociedade, quer descartar os integrantes do grupo. Misteriosamente eles vão sendo mortos, servindo de comida para o selvagem e grotesco "gato" de estimação deles, ou sabotando-os, até que ele mata um dos gêmeos siameses. 


A nave é explodida por Orujo caindo no planeta Astúrias, local onde não existe mulheres, o que faz com que Patrícia seja disputada pelos habitantes do local. 
Alex, o gêmeo remanescente, irá buscar vingança e tentará conquistar o coração de Patrícia. Detalhe para o gêmeo morto que é descaradamente substituído por um cômico boneco que é arrastado de um lado para outro por Alex.


Por fim há o confronto com Orujo, o maluco ditador capitalista que não aceita pagar o resgate da própria filha, mostrando-se ainda pior que o próprio sequestrador. Ela mesma, conhecendo o pai, prefere ficar com o sequestrador. Tudo isto é televisionado como um espetáculo qualquer, com direito a apresentador. 

O filme termina de uma forma decepada e romântica após a ação violenta da polícia.

< Fim dos spoilers >


O filme tem um roteiro bastante original e criativo, criando um universo particular com lugares, medidas e moeda fictícios. É repleto de situações exageradas de humor negro e críticas, tanta para a ditadura da beleza, a mídia, a polícia, quanto para oprimidos que tornam-se opressores, tornando o filme sempre atual. Os efeitos são bem feitos, dispensando truques de computação gráfica, com um orçamente razoavelmente baixo, estimado em $ 2.5 milhões. Alguns elementos do filme lembram o estilo do cinema do holandês Paul Verhoeven, principalmente Robocop e Tropas Estelares.

Ação Mutante foi o primeiro filme dirigido por Álex de la Iglesias este que conta com a produção de Pedro Almodóvar. Álex dirigiu em seguida o ótimo O Dia da Besta (El Dia de La Bestia, 1995).

O título do filme também inspirou o nome da banda alemã de crustcore/grind Accion Mutante, muito boa, por sinal.

Mais um bom filme que não foi lançado no Brasil em DVD. Recomendo!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Juan de Los Muertos (Cuba, Espanha, 2011)

Filme: Juan de Los Muetos / Juan Dos Mortos / Juan of the Dead
Diretor: Alejandro Brugués
Ano: 2011
País: Cuba / Espanha
Duração: 92 minutos
Elenco:  Alexis Díaz de Villegas, Jorge Molina, Andrea Duro
IMDb: 6,3


Juan é um sobrevivente, que ao invés de ir para Miami trabalhar, como fazem muitos cubanos, prefere ficar em Cuba em busca de oportunidades e vadiando, um direito básico. Ele vai levando a vida como pode com suas malandragens, até que certo dia, sua vizinha o chama para averiguar seu marido, que possivelmente está morto. Mas o homem volta a vida e tenta atacar Juan que se obriga a pedir ajuda para seu amigo trapalhão Lazaro e Vladi Califórnia, o filho deste. Lazaro, com seus dedos leves, acaba disparando o seu arpão, atravessando o velho e parando em sua esposa, a matando. Mas o velho continua "vivo", andando em direção a eles com o cabo do arpão o atravessando, em uma das mais criativas e divertidas cenas que vi nos últimos tempos. 


Ainda nesta cena hilária os três tentam cravar estacas no peito do zumbi, achando se tratar um vampiro. Juan tenta detê-lo com uma cruz e rezando, como se estivesse possuído pelo demônio, mas só surte efeito quando a cruz é batida com força na cabeça do velho morto-vivo, sem saber que se trata de um zumbi. 


Para livrarem-se dos corpos, empacotam a velha e a levam para o elevador. O elevador para na metade do andar e eles a colocam para fora, mas suspeitando que alguém está vindo pelo corredor, fazem, com pulos, o elevador descer, mas o cadáver da velha é cortado ao meio quando o elevador desce.

Mais tarde, em uma manifestação anti-EUA, os zumbis passam a atacar as pessoas, mordendo muitas delas e as tornando também zumbis, espalhando-se rapidamente. Há zumbis, inclusive, nadando e sendo devorados por tubarões, lembrando Zombie, de Lucio Fulci. Há também outras referências à filmes de zumbis, a começar pelo título ao estilo Romero e até ao Fome Animal, quando o padre americano fala a célebre frase: I will kick ass for the lord! 


Enquanto muitos estão indo para Miami, Juan, mesmo com as dificuldades, aproveita para fazer negócio com a situação. Eles abrem o "Juan dos Mortos", cujo slogan é "Matamos seus entes queridos" que, quando chamados, vão às casas matar os zumbis e fazer um dinheiro.
Além do carismático Juan, a equipe é formada também por Lazaro, Vladi, a travesti China e Primo, um grandalhão que tem pavor a sangue e precisa cobrir os olhos. Mais tarde Camila, a filha de Juan junta-se ao grupo. Acabamos simpatizando com os personagens, cada um com suas habilidades, passando por situações divertidas, trapalhadas e sempre tentando tirar vantagem, como quando pegam a cadeira de rodas de um deficiente para carregar caixas de bebidas e o deixam para ser atacado pelos zumbis. Engraçado também é a dança das algemas e o último pedido que Lazaro faz a Juan.


Diferente de muitos filmes genéricos de zumbis que têm saído nos últimos anos, Juan de Los Muertos é bastante criativo e divertido, fazendo uma forte critica o governo cubano, mostrando a coragem do diretor através deste gênero tipicamente norte-americano. Há críticas também para a mídia controlada pelo governo que, neste caso chama os zumbis de dissidentes, como se eles estivessem a serviço dos americanos. Outra possível crítica é para o próprio povo cubano que insiste em tentar a sorte nos EUA, e também os retrata como folgados que tentam tirar vantagem o tempo todo. 

O lado negativo é o uso de CGI em algumas cenas que acabaram não ficando das melhores, mas como é pouco usado, não chega a comprometer este bom filme que termina ao som da impagável versão de Sid Vicious para My Way. 
Juan De Los Muertos é uma co-produção de Cuba e Espanha, escrita e dirigida por Alejandro Brugués, que ironicamente é argentino.

sábado, 24 de agosto de 2013

Baby Blood (França, 1990)

Filme: Baby Blood
Diretor: Alain Robak
Ano: 1990
País: França
Duração: 82 minutos
Elenco: Emmanuelle Escourrou, Christian Sinniger, Jean-François Gallotte 


Baby Blood é, para mim, mais uma grata surpresa vindo da França, país no qual tem se destacado nos últimos anos pelas produções violentas e perturbadoras como Eles (Ils), Alta Tensão (Haute Tension), A Fronteira (Frontière(s)), A Invasora (À l'intérieur), entre outros. Mas muito antes desta recente safra de horror, foi produzido Baby Blood de Alain Robak em 1990.


Um bizarro início apresenta a formação do planeta Terra narrado pela estranha voz de um ser presente há milhões de anos mas que ainda espera para nascer (só não me pergunte como ele pode falar sem ter nascido, mas isso não é importante).



O ser parasita se hospeda em um leopardo que é trazido da selva para um circo na França, lembrando o início de Fome Animal, que seria filmado mais tarde. No circo o animal acaba sendo explodido pela estranha criatura que vai buscar abrigo no corpo de Yanka, entrando por aquele local que você está pensando, enquanto ela dorme.






Ela foge do circo, deixando seu namorado/marido autoritário, e o parasita começa a se comunicar com ela, exigindo sangue para se desenvolver e finalmente nascer, por horas até com certo bom humor. Hesitante no início, depois, como toda boa mãe, ela não mede esforços e leva os instintos maternos às últimas consequências, mudando-se constantemente e levando uma vida independente. Por onde passa, ela vai empilhando cadáveres, a maioria homens, para saciar o apetite de seu incomum filho. Este objetivo nos proporciona cenas de homens mutilados, cabeças esmagadas, Yanka sequestrando um ônibus para doação de sangue e matando quem se puser em seu caminho. Uma das melhores cenas é quando ela está na ambulância prestes a dar a luz e enche o enfermeiro de gás, fazendo-o inchar e explodir deixando a ambulância repleta de sangue e restos humanos. 




O filme vai se tornando cada vez mais sangrento e, por fim, após Yanka simpatizar com a criatura, o bebê finalmente nasce sob a forma humana, que depois é abandonada dando lugar à sua verdadeira e monstruosa forma.
O gore é abundante neste filme, também com destaque para o sonho que ela tem quando braços sangrentos saem de sua barriga. Ainda há alguns momentos de nudez da protagonista e algumas passagens cômicas.


O filme tem um ritmo rápido com uma edição bastante interessante, até alguns efeitos de fast-forward, tornando-o agradável e divertido de assistir e nos deixando curiosos para ver os desfecho do filme, que não deixa a desejar.  Destaque para a constante sanguinolência bem empregada em bons efeitos.



Um filme diferente e único, bem feito e com um bom roteiro, misturando elementos de bebês demoníacos presentes em O Bebê de Rosemary e Nasce Um Monstro (It's Alive) com a sede de sangue de outros como Enraivecida na Fúria do Sexo (Rabid, de Cronenberg), O Soro do Mal (Brain Damage) e Basket Case, mas sem tanto humor destes últimos. 
É sempre bom descobrir filmes surpreendentes como este.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Plan 9 From Outer Space (EUA, 1959)

Filme: Plan 9 From Outer Space / Plano 9 do Espaço Sideral
Diretor: Edward D. Wood Jr.
Ano: 1959
País: EUA
Duração: 79 minutos
Elenco: Gregory Walcott, Mona Mckinnon, Duke Moore, Vampira, Bela Lugosi, Criswell
IMDb: 3,8



"Estamos todos interessados ​​no futuro, por que é onde você e eu vamos passar o resto de nossas vidas. E lembre-se meu amigo, eventos futuros como estes irão afetá-lo no futuro." Criswell e suas previsões.

Muitos consideram Plan 9 From Outer Space um dos piores filmes já feitos, motivo que o tornou tão popular, embora saibamos que existam coisas bem piores. 

Logo no início começamos a ver o motivo de tal fama. Após a incrível previsão citada no início deste texto, um avião é surpreendido por um disco voador (uma tampa de panela segurada por um fio).  O interior do avião é de uma tosquice ímpar, com destaque para o manche do piloto e a cortina de banheiro ao fundo. Sem contar o discreto microfone aparecendo na parte superior da tela.


Após um passeio pelos céus, o disco voador pousa em um cemitério. De trás das tumbas sai uma mulher morta (Vampira, em seu papel clássico) e, enquanto ela aparece num cenário à noite, os coveiros que se assustam com sua presença, ainda estão na luz do dia! Mais tarde os coveiros são encontrados mortos pela polícia, que passa a investigar o caso. 


O disco voador volta a atacar com suas luzes e um homem que acabara de morrer (o húngaro Bela Lugusi, com seu clássico traje de Drácula) sai de outra tumba (porém, nesta cena já não é mais Lugosi, e sim seu sósia) . Ele e Vampira atacam o inspetor Clay (Tor Johnson, um ex-lutador de luta livre que fez vários filmes com Ed Wood), que atira neles, mas sem resultado e acaba morrendo. Interessante é o cenário tosco do cemitério feito de papelão e com uma estranha neblina apenas em uma parte do cemitério.
Vários discos voadores aparecem na cidade, em efeitos dos mais convincentes, sobrepondo-se à cenas de locais da cidade.


O exército é convocado, com imagens de arquivo de mísseis sendo disparados e caças sobrevoando, se misturando a tosquice do filme, com o coronel em uma sala sem fundo. Os três discos voadores ficam balançando nos céus, (quase sempre com o mesmo fundo), enquanto as explosões (que mais parecem estalinhos) não são capazes de abatê-los.


Depois disso as naves voltam para a central, que mais parece um pogobol metálico, para receberem a recarga. Os alienígenas tem a mesma forma que humanos e falam sobre o plano 9. Trata-se de uma medida para ressuscitar os mortos com suas armas de eletrodos  Eles não controlam os mortos, apenas os ligam/desligam com suas armas, que são jogadas no chão para voltarem a funcionar, quando estas falham. Realmente um povo muito avançado.


O piloto do avião, voa novamente e faz uma ligação diretamente do avião para a sua esposa. A tonta não fecha a porta dos fundos e é atacada e perseguida por um defunto (novamente o sósia de Bela Lugosi, fisicamente bem diferente), com toda a sua agilidade. Naturalmente ela vai para o cemitério, enquanto, repetidas vezes, uma hora está claro, outra está escuro, dependendo do ponto de vista, mostrando que Ed Wood realmente se preocupava em fazer algo bem feito e de qualidade, refazendo milhares de vezes cada tomada (não). Após ficar noite mais uma vez, o inspetor Clay ressuscita e ficam passeando infinitas vezes pelo mesmo cenário enquanto, é claro, continua alternando entre o dia e a noite. 


Os militares com toda a sua inteligência desenvolvem um tradutor para qualquer idioma, mesmo os desconhecidos!! Este grava as transmissões alienígenas que revelam que estes seres são muito mais evoluídos que os humanos (tanto que até sabem que eles inventaram este tradutor universal!). Eles questionam os humanos que se acham os únicos no universo e que com suas armas nucleares colocam todo o universo em risco, e dizem que vieram salvar a terra. Eles pedem para os discos não serem mais atacados, porém, como isto não é respeitado, acabam sendo como os humanos: intolerantes. Assim, eles, para salvarem o próprio planeta tentarão destruir a ameaça terráquea.

Os policiais e o piloto, que até recebe uma arma dos oficiais, chegam até a nave escondida e, para o nosso espanto, a nave não tem o formato arredondado de uma tampa de panela, como vimos nos céus, mas sim quadrado, parecendo um prédio! Talvez a nave possa se adaptar a diferentes formas, deve ser isso. Detalhes à parte, eles entram na nave sem problemas e lá encontram os extra-terrestres, que não parecem tão evoluídos como dizem. Ele volta a falar nos perigos que os humanos podem criar para todo o universo e que, para sobreviverem, precisam destruir o planeta terra e fala, até mesmo que também foram criados por deus. Realmente não são nada evoluídos.

Os terráqueos ainda são melhores lutando e conseguem derrotá-los e destruir os equipamentos cheios de luzes piscantes e saírem a tempo, antes da nave sair voando em chamas e explodir.

Com toda a onda de filmes Sci-Fi dos anos 50, com histórias de ameaças alienígenas, numa época de guerra fria, Ed Wood também não podia deixar de fazer a sua obra do gênero. O filme foi produzido em 1956 e somente em 1959 foi comercializado. Foi financiado pela Igreja Batista, sob o pretexto de, com o sucesso do filme, filmar 12 filmes sobre os apóstolos. O nome original do filme seria Ladrões de Túmulos do Espaço Sideral, mas como a igreja não gostou, foi alterado para Plano 9 do Espaço Sideral. Ele e sua equipe chegaram a serem batizados pela igreja para conseguir o financiamento. Ed Wood ainda teve que dar um dos papéis principais, o do piloto, para um integrante da igreja.

Vampira, na época estava em decadência, acabara de ser demitida do programa de TV que apresentava e assim como o personagem de Bela Lugosi (ou seu sósia), acabou apenas andando de um lado para outro no diminuto cenário sem falar nada e sempre com a mesma expressão. Na época, Lugosi, depois de estar falido e drogado, acabara de morrer. As cenas em que aparece seriam do filme "Tomb of the Vampire", quando Lugosi morreu no início das filmagens, mas acabaram sendo aproveitadas em Plan 9 From Outer Space. Por isso a necessidade do sósia atuar cobrindo o rosto, mesmo assim nota-se que é um homem mais jovem, magro e alto que o original.

De fato o filme é muito ruim e mal feito, com microfones aparecendo, atuações horríveis, gritos descontrolados, efeitos e cenários (principalmente o cemitério e a cabine do avião) nada convincentes, atores lendo o texto, as citadas mudanças repentinas de dia/noite, o disco voador tampa de panela (que é na verdade quadrado) que sempre aparece no mesmo fundo, além de uma narração querendo ser poética, muitos diálogos inúteis, cenas repetidas, a utilização de cenas de arquivo, roteiro furado... ufa! Algo interessante é a trilha sonora, que não chega a ser ruim. Tudo isso feito com o orçamento de $ 60.000, que acho até que foi gasto muito para este filme que não tem nenhum cuidado com a qualidade. Mesmo assim é um filme divertido, certamente não é o pior filme de todos os tempos, como foi eleito e coloca juntos em tela zumbis, vampiros, alienígenas e "grandes" estrelas do horror. 

E além disso, não sei se foi a intenção de Wood, mas pode-se ver o filme também como uma critica à contínua busca por aperfeiçoamento tecnológico e bélico, sendo a maior ameaça para o planeta e todas espécies que vivem nele. 

E mesmo que Ed Wood tenha sido um péssimo diretor e sem talento para tal, era apaixonado por cinema e fazia o possível para realizar os seus filmes, sempre com criatividade e improviso para contornar o baixo orçamento, sendo além de diretor, também roteirista e ator.